Por que o preço de uma ação ou FII sobe?
Eu sei que você já ouviu falar que o preço de uma ação ou FII sobe porque o lucro subiu.
Talvez EBITDA melhorou. Ou NOI surpreendeu.
Nada disso.
O preço de um ativo negociado em bolsa sobe por apenas dois motivos:
- Agrupamento;
- Compra acima do preço da última negociação, o que chamamos de valorização.*
O primeiro motivo é um mero ajuste de liquidez e variância. Além disso é incomum.
O segundo motivo é o que causa furor nos corações dos investidores.
Agrupamento
O agrupamento é quando o número de valores mobiliários de um bem é reduzido em uma proporção tal e seu preço é aumentado na mesma proporção.
As bolsas recomendam que os agentes responsáveis pelos ativos façam isso principalmente quando a variação mínima do preço de um ativo está perto do preço de um ativo.
Vamos a um exemplo.
Hoje, enquanto escrevo isso, existe uma empresa chamada Ambipar. A cotação de fechamento hoje, ou seja, a última negociação de compra e venda aconteceu ao preço de R$131,04.
A variação mínima do preço é de 1 centavo.
Se o preço da Ambipar variar 1 centavo amanhã, ela variará 0,0076%
Essa variação é pequena. É difícil que alguém tenha sua vida transformada por causa de uma operação de 0,0076%
Agora, vejamos o caso da Ânima. A última negociação de compra e venda de hoje foi ao preço de R$1,86.
A variação de 1 centavo aqui, move a ação em 0,54%. Perceba, é uma variação 100 vezes maior que a da Ambipar, causada pela negociação do mesmo “centavo”.
O processo é simples.
Imagine uma empresa que possui 10.000.000 (dez milhões) de ações que no momento estão custando 1 real.
Ora, uma variação de 1 centavo apenas causa 1% de mudança no patrimônio alocado àquela ação.
Essa é uma situação propícia para um agrupamento. Assim, a empresa pode reduzir o número de ações emitidas de dez milhões para um milhão. Isso é uma divisão de 10.
Para não alterar a estrutura da empresa, basta multiplicar o preço de uma ação por 10. Ou seja, ela passa de 1 real para 10 reais.
O preço da ação aumentou porque o número de ações reduziu, nas mesmas proporções.
Essa movimentação acontece, mas é muito mais incomum que a mera valorização ou desvalorização do preço de uma ação.
O agrupamento é feito para resolver um problema. E não altera o patrimônio, nem da empresa, nem dos seus sócios.
Valorização
A valorização de uma ação acontece quando um negócio de compra e venda é feito a um preço maior que o preço da última negociação realizada.
Vamos a um exemplo:

Vemos o nome do código de negociação da Vale em cima: VALE3.
À esquerda, o que chamamos de “o preço da Vale”: R$55,03.
Logo embaixo vemos Compra e uma coluna de diferentes linhas R$55,01, e Venda e uma coluna de R$55,03.
Isso significa que a última negociação onde alguém aceitou comprar e algum aceitou vender simultaneamente, foi a R$55,03.
Neste momento, existem pessoas que estão dispostas a comprar ações da Vale por R$55,01. Mas ninguém está disposto a pagar mais do que isso.
E existem pessoas que estão dispostas a vender por R$55,03. Ninguém, por menos que isso.
Vamos para um outro momento.

O preço da última negociação bem sucedida de Vale foi a R$55,04.
O preço máximo que alguém paga para comprar uma ação de Vale é R$55,02 e o preço mínimo que alguém aceita vender Vale é R$55,05.
O que acontece se uma pessoa que tem dinheiro, deseja ter ações da Vale?
Ela olhará para a tela e verá essa informação acima na imagem. E aí ela precisa decidir: que preço estou disposta pagar para ter ações da Vale?
Se o preço máximo que essa pessoa está disposta a pagar é R$55,03, ela vai dar a ordem e nenhum negócio será realizado. Porque ninguém, neste momento, quer vender ações da Vale neste preço.
Porém, se ela estiver disposta a pagar R$55,05, ela enviará a ordem que será executada pois existem pessoas dispostas a vender por R$55,05. Com isso, o preço da última negociação de VALE3 passa a ser R$55,05, e passamos a entender, baseado apenas nesta última negociação que pode ser de apenas 100 ações, que o preço de uma ação da Vale, agora tem valor de R$55,05.
Uma das maneiras comuns de precificar a empresa é multiplicar o número de ações emitidas pelo “preço da ação” (menos as ações em tesouraria que deixaremos de fora)
O número de ações emitidas pela Vale, no momento que escrevo isso é de 4.539.010.000. Ou seja, uma variação de preço de R$0,01, move o “valor da empresa” em R$45.390.100,00.
Agora, vamos voltar à imagem. Perceba que a última linha da coluna de Venda não é de R$55,05 e sim R$55,06. Ou seja, existem pessoas que estão dispostas a vender ao todo 1.000 ações (200+600+100+100) da Vale a R$55,05. Porém após isso, estão dispostas a vender as ações apenas por R$55,06.
Vamos supor que a pessoa que quer comprar ações da Vale, quer 1.300 ações e ela está disposta a pagar qualquer preço. Isso significa que ela envia a ordem de compra, e elá comprará as 1.300 ações, 1.000 por R$55,05 e 300 por R$55,06.
Isso fará com que “o preço das ações da Vale” não vá para R$55,05 e sim para R$55,06.
Isso fará com que a ação da Vale se valorize.
Veja, não tem lucro, produtividade, EBITDA, Lula, Bolsonaro, Brumadinho, Dólar, nada. Existem pessoas que, para ter uma ação ou uma cota de FII, estão dispostas a pagar mais do que a última negociação bem sucedida daquela ação ou cota.
É isso.
Essa mecânica não é de entendimento óbvio. Muitas vezes vejo pessoas perplexas porque uma empresa anuncia lucro e o preço da ação cai. Ou então um FII vende um imóvel abaixo do preço de mercado e o preço da cotação sobe. Esses fatores alteram o desejo das pessoas, alteram a percepção ou as expectativas que existem para o futuro daquele ativo. Mas esses fatores não influcenciam o preço.
Logo, se uma empresa reporta que o lucro aumentou, não existe uma obrigação que o preço da ação suba. Se o lucro aumentou e o preço caiu, significa que o conjunto de fatores que foi anunciado pela empresa ou outros fatores externos reduziram o desejo dos investidores pelo ativo.
Por que isso é importante?
Para mim, entender essa mecânica de forma profunda possui doi benefícios fundamentais para o investidor: o “jogo que se joga”, e o “por que caiu?”.
Algumas pessoas não sabem qual jogo estão jogando. Dizem investir para o longo prazo, mas não aceitam que o preço de uma ação caia 2% no dia. Ou ficam felizes quando o preço de uma cota de fundo sobe 3% na semana.
Essas variações de curto prazo são apenas as manifestações dos desejos das pessoas de ter ou não ter aquele ativo.
Se você quer medir o resultado dos seus investimentos pelo que o preço do ativo fez no dia ou na semana, não deve se preocupar com lucro, ou taxa de juros ou produtividade ou vacância. E sim, com as expectativas e com o desejo das pessoas . Com a ganância e com o medo dos participantes do mercado. É um exercício mais de psicologia do que de entender os fundamentos financeiros ou empresariais.
O “por que caiu” vem, na minha opinião, de uma combinação de duas falácias: a falácia do controle e a falácia da atividade.
A falácia do controle é o nosso entendimento que nós temos controle sobre tudo. Nós erroneamente acreditamos que controlamos as coisas. E que se você não sabe “por que caiu”, é porque está fora do seu controle. Sabendo porque caiu, está no seu controle. O que é bastante ingênuo. As movimentações do mercado estão vastamente fora do nosso controle. O nosso controle vai até onde podemos colocar ordens de compra ou de venda. E só. No mais, as empresas e fundos estarão interagindo entre si, entre clientes, entre concorrentes e sofrendo as glórias e reveses que Fortuna tem reservadas para nós todos. Statu variabilis.
A falácia da atividade vem da nossa crença que se fizermos algo, será bom. Se não fizemos nada, será ruim. É a virtude moral da ação em si. O que também é ingênuo. Como se se você soubesse o que motivou as pessoas a quererem vender o ativo ao ponto de causar uma queda no preço, você também teria vendido. Ou ainda que dependendo do motivo que esteja causando o desejo pela venda, você terá plena capacidade para avaliar de uma maneira perfeitamente racional se por este fato apenas, ainda vale a pena ser sócio ou cotista do ativo.
Tudo isso indica uma falta clara de estratégia.
Falta do entendimento do papel de um patrimônio financeiro na sua vida.
Como consultor de investimentos, meu papel é fornecer isso. É manter você afastada das armadilhas e dos vieses que se formam ao redor dos julgamentos rápidos, emocionais, potencialmente destruidores do seu patrimônio.
*A compra de ativos causada por uma questão de adaptação de índices de mercado, causa valorização. A adaptação de índices de mercado não causa alteração de preço. A compra dos ativos a preços cada vez maiores sim.
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